”Licenças argentinas são embromação”

Skaf diz ainda que são vergonhosas as bases de antidumping e que o país aplica medidas de defesa comercial politicamente

Entrevista
Paulo Skaf: presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, fez pesadas acusações à Argentina. Em entrevista ao Estado, ele disse que o governo local promove acordos de preço. “No Brasil, isso dá cadeia.” Skaf afirmou ainda que as licenças de importação do país vizinho são uma “embromação” e classificou as bases técnicas dos processos antidumping de “vergonhosas“. A seguir, trechos da entrevista:

Qual é o impacto das medidas da Argentina para a indústria?

Esses produtos em que temos problemas com a Argentina representam 10% do comércio. Muitas vezes os argentinos argumentam que é só 10%. Mas, se você analisar setorialmente, agride muito. Tem muita injustiça no têxtil, trigo, nos calçados e eletroeletrônicos. A Argentina dificulta a exportação de trigo para o Brasil, estimula a oferta no mercado local, o grão cai de preço. Os moinhos argentinos compram trigo barato. É um primeiro subsídio. Na hora de vender para o Brasil, o trigo paga 23% de tarifa e a farinha, 13%. Chega farinha de trigo quase ao preço do grão e isso inviabiliza o setor moageiro no Brasil. Na área têxtil, tem o caso do fio de acrílico. Foi feito um processo de dumping, colocada uma sobretaxa, com bases técnicas vergonhosas. Não há a preocupação em fazer as medidas com critérios rigorosos. Quando politicamente querem atender, fazem do jeito que for e impõem uma sobretaxa.

Ocorreu desvio de comércio?

Em alguns casos, sim. Porcentualmente, eles deixaram de comprar mais do Brasil do que a China. Deveria ser o inverso. Esse é o espírito do Mercosul.

A Argentina está errada em defender a sua indústria?

No caso do fio de acrílico, quando criaram obstáculos, a indústria deles estava trabalhando a todo vapor. Não adianta defender uma indústria que não se modernizou, que só quer protecionismo e não investe.

Qual é avaliação da Fiesp sobre a retaliação feita pelo Brasil?

O governo brasileiro até que foi muito tolerante e paciente. Eles não mudaram de atitude. Fez muito bem o governo brasileiro de endurecer o caldo. Ao invés de a Argentina se preocupar em defender uma ou duas fábricas, deveriam se preocupar com o consumidor e com a inflação argentina. Licença não automática pode ser lida como embromação. No dumping, antes de começar o processo, já tem decisão política. A empresa brasileira faz uma defesa de mil páginas que eles nem leem. Fazem acordos setoriais de preços, que é um desrespeito ao consumidor argentino. No Brasil, isso dá cadeia. Se juntar para combinar preço é crime. Lá o governo estimula as pessoas a combinarem preço para lesar o consumidor argentino.

O governo brasileiro demorou para reagir?

O entendimento e o diálogo nem sempre é eficaz com a Argentina. É preciso posições mais firmes, quando nosso parceiro interrompe o diálogo e arbitra castigos para as empresas brasileiras. Esse tipo de medida não parte do Brasil. Eles atendem a 80% do nosso mercado de aerossóis e não colocamos cota nenhuma.

O sr. recebeu a presidente Cristina Kirchner na Fiesp e disse que era preciso ter paciência. Por que mudou de ideia?

Não mudei de ideia. Teve um período no ano passado que a Argentina tinha uma crise política e econômica forte. Eu defendi, nesse período, priorizar a colocação de produtos feitos lá, com preço e qualidade compatível. Ter um pouco de tolerância. Amém. Mas, ao invés de melhorar, piorou. Não adiantou nada, porque não há reconhecimento disso.

Qual é a sua expectativa da reunião dos presidentes?

Minha expectativa é que os presidentes acertem um clima de entendimento e volte o espírito do Mercosul de parceira. Eles receberem produtos brasileiros não é um favor. Nós investimos para atendê-los. É hora do desarmamento.

O sr. é favorável à entrada da Venezuela no bloco?

Contra a Venezuela ninguém tem nada. O povo venezuelano merece respeito. Mas existe hoje um presidente polêmico. Se a Venezuela respeitar os tratados, não podemos fulanizar um país. Mas o que não pode é alguém chegar falando o que não deve.

O sr. será candidato em 2010?

Não sei. Só no ano que vem será resolvido. Eu me filiei ao PSB. O partido me convidou com a intenção de ser candidato ao governo do Estado. Eu aceitei me filiar, mas, quanto ao convite, ainda temos tempo até o ano que vem.

O Estado de S. Paulo – 18/11/2009
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